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À espera de adoção, famílias escrevem cartas aos futuros filhos

À espera de adoção, famílias escrevem cartas aos futuros filhos

“Neném da mamãe, a saudade de você é imensa. Não sei se você é menino ou menina, se é um bebezinho ou se já tem um, dois ou três anos. Mamãe espera por você há 910 dias, e continuo sustentando o desejo de ser sua mãe e de que você, finalmente, possa nascer para mim”.

Assim, inicia a carta da psicóloga Daniele Tavares, 44, ao filho ou filha de zero a três anos de idade, de qualquer cor, que ela já aguarda desde junho 2017, quando entregou a documentação para iniciar o processo de adoção e começou a se preparar para receber a criança. A espera, porém, segue indefinida.

“Esse número de dias, neném, equivale a muitas noites de tempestades, dias de sol e manhãs de vento. O objetivo dessa passagem de tempo é chegar na manhã de primavera em que você vai florescer para mim – mesmo que seja verão.”

A vontade de ser mãe é tão certa para a psicóloga quanto a existência de um pequeno no mundo que se encaixe no abraço dela, tão disposta a dedicar tempo e amor. Durante esse tempo de espera, Daniele procurou grupos de apoio para saber mais e entender melhor sobre o contexto da adoção, e acabou se tornando uma das voluntárias da Acalanto (organização da sociedade civil voltada à causa) e fundadora do Coletivo de Pais e Pretendentes à Adoção (Coppa).

“Não se preocupe, pois a mamãe luta com todas as forças para que você e seus coleguinhas de instituição de acolhimento possam estar conosco, dormindo aconchegados em nossos colos. Seu quarto está pronto, cheio de bichinhos de pelúcia que você ganhou de presente. (…) Você é tão amado por mim, neném, que não tem nem um dia desses 910 que eu tenha passado sem conversar com você, sem contar uma história ou sem cantar.”

CARTA
CARTA

Daniele é uma entre os 790 pretendentes que aguardam pela conclusão de um processo de adoção no Ceará, de acordo com dados do Cadastro Nacional de Adoção (CNA). Do total, apenas 90 estão vinculados a um adotando, ou seja, em processo de adaptação à nova vida de que precisam cuidar. Os demais, assim como a psicóloga, continuam aguardando trâmites da Justiça – e ressignificando a espera.

“Rezo todos os dias para que a proteção Divina, que nos guia nesse encontro, possa te proteger de todo mal, das doenças, das violências institucionais, dos abusos, da fome, do frio, da falta de colo, da falta de olhares significativos para você. Rezo também para que eu sustente a luta que é manter o meu encantamento e doçura apesar de toda tristeza que é saber que você e seus coleguinhas não são tratados com a devida prioridade pela Dona Justiça, que insiste em mantê-los invisíveis. Mas não tema. Mamãe está chegando e os pais de seus coleguinhas também”, explica em carta.No Ceará, 263 crianças e adolescentes estão cadastrados no CNA, dos quais 128 estão vinculados. A conta entre o número de pretendentes e o de adotandos não fecha por vários motivos: dentre eles, a falta de equipes socioassistenciais suficientes para realizar visitas e agilizar os processos de destituição familiar e vinculação parental.

“Ontem choveu saudade de você, e depois abriu um sol de amor. (…) Nestes 910 dias, a mamãe deu entrevistas, palestras, cantou para você em audiência pública, plantou corações de papel colorido para ver se colhia você, escreveu uma história infantil, sobre adoção, para narrar a você a espera de amor e luta para o nosso encontro. A cada momento em que falo de você, sinto você mexer na minha alma. Isso me fortalece e sigo esperando o nosso encontro.

Mamãe quer que você chegue para poder te ensinar repetidamente que o sol sempre nasce no dia seguinte, não importa o que você tenha sentido na noite anterior; que o escuro é só o medo brincando de esconde-esconde; e que eu estarei aqui a velar o teu sono e a ti proteger, noite após noite, até você não querer mais quando a mocidade chegar.”

Advento

Quem também compartilha da espera vivenciada por Daniele é o casal Michelle Pascoa, 34, e Cauê Pascoa, 34, que aguardou nove meses para entrar na fila de adoção – e já permanece nela, de pé, há um ano e meio.

“Nosso filho querido, no instante em que te escrevemos esta carta, a cidade está repleta de luzes, as casas estão enfeitadas e as famílias se reúnem para celebrar a vida de um bebezinho muito especial, assim como você. Esse pequeno menino se chamava Jesus de Nazaré, ele veio ao mundo para nos falar de amor ao próximo, de tolerância e nos ensinar o caminho da paz.”

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Michelle e Cauê fizeram um ensaio fotográfico para ilustrar a espera pelo futuro filho adotivo. FOTO: MARÍLIA CAMELO

A espera pelo primogênito foi representada em um ensaio fotográfico da “gestação”, e é ressignificada todos os dias – principalmente por meio das publicações na página @caminhosdaadocao, criada por Michelle para munir pretendentes como ela e Cauê de informações e de forças para lidar com a falta de celeridade dos processos.

“Assim como Jesus se uniu a José pelo laço do amor, nós nos uniremos a ti. Neste Natal, não armamos a árvore, nem enfeitamos a casa, pois isso parece não fazer muito sentido sem você. Mas tão logo você chegue, iremos juntos – você, a mamãe e o papai – montar uma linda árvore, e poderemos te dizer com você em nossos braços, tantas outras histórias de amor deixadas por esse pequeno menino Jesus. Venha logo, filho amado. Você é o nosso presente de Natal e de todos os outros dias.

Com amor, Mamãe e Papai.”

CARTA
Por Theyse Viana do Diário do Nordeste.

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